quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Negros sinais, má fortuna


 


Que ingénuos acreditaram que se ia deixar de festejar (fazer festa) com a virulenta e sanguinária revolução do 5 de Outubro, pela simples cedência do 1º de Dezembro, dia da Restauração da Independência Nacional?
Eis a razão profunda do nosso atraso: a casta caquéctica e facciosa, que com mais ou menos secretismo e às vezes descaramento controla o País há demasiado tempo. Mas o mais grave é o fenómeno que se encontra do outro lado da barricada: aí revela-se a apatia e complacência  (ou cobardia) daqueles que penhoram valores fundacionais da nossa nacionalidade por um prato de lentilhas, umas telenovelas ou reality shows no quentinho da sua medíocre existência.  Como diz o meu amigo Jorge Lima, a fractura não é hoje entre esquerda e direita. É entre patriotas e vendidos. Ou entre cultos e ignaros. Entre gente com espinha e oportunistas plebiscitados.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Entrevista a uma Princesa Rebelde - D. Maria Adelaide de Bragança

Em vesperas de completar um século de vida, reeditamos uma curta crónica a respeito da entrevista a SAS a Infanta Dona Maria Adelaide de Bragança feita em Novembro de 2009 para o Correio Real nº 2.


 



Há dois anos, por ocasião duma pequena entrevista para o Correio Real nº 2, o Boletim da Real Associação de Lisboa, fui à outra banda onde tive o privilégio de privar com uma verdadeira Princesa, tão ou mais encantada que as dos romances e do cinema: falo de D. Maria Adelaide de Bragança, infanta de Portugal, que por insólita conjugação de duas paternidades muito tardias e da sua provecta idade, é hoje uma neta viva do rei D. Miguel, esse mesmo do absolutismo e do tradicionalismo, da guerra civil de 1828 – 1834. 
D. Maria Adelaide nasceu em 1912 no exílio, em St. Jean de Luz, cresceu e viveu na Áustria aventuras e desventuras de pasmar: habitando no olho do furacão, após a I Grande Guerra coabitou com os ocupantes comunistas da quinta em que vivia, dos quais recorda dos seus esbeltos cavalos e boinas vermelhas. Mais tarde, durante a ocupação nazi, foi presa pela Gestapo por várias semanas em Viena onde como enfermeira se juntara à resistência e acudia os feridos entre bombardeamentos. Foi nestas correrias e aflições que veio conhecer um estudante de medicina de seu nome Nicolaas van Uden com quem casou. 
Regressada a Portugal em 1948 após a revogação da lei do banimento, a Infanta veio residir perto da Trafaria, onde criou a Fundação D. Nuno Álvares Pereira, instituição de apoio a mães pobres em fim de gravidez e crianças abandonadas, dedicando fervorosamente a sua vida aos mais desfavorecidos.
Longe das fugazes ribaltas e feiras de vaidades, a Senhora D. Maria Adelaide afilhada da Rainha D. Amélia e de D. Manuel II, hoje com noventa e sete anos, além de constituir um precioso testemunho vivo, directo e indirecto, da História dos últimos duzentos anos, é um verdadeiro exemplo de profunda Nobreza aliada a uma invulgar bravura e irreverência.


 


Texto reeditado

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Monarquia sinal de democracia


 


A "Economist Intelligence Unit" publicou recentemente o seu relatório anual sobre o nível de "democratização" de 165 países. Considera que apenas 25 países funcionam em plena democracia (26 em 2010), entre os quais, uma vez mais, estão todas as monarquias constitucionais (são 12). Portugal é 27º, desceu um lugar tendo sido ultrapassado por Cabo Verde!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Os Reis não têm "amigos"


(...) O Chefe da Casa Real não faz negócios, não mexe em dinheiro, não arranja empregos nem os pede, não faz lóbi, não anda em partidos e curibecas; em suma, não vive "disto". A simpatia que o rodeia em todas as ocasiões - nas festas populares, nos eventos culturais, nas feiras que visita, nos congressos que se honram com a sua presença - é o que parece: SAR transformou-se, paulatinamente, num amigo natural e sem artifício de tudo o que é português, de tudo o que tem a ver com o interesse português, de tudo o que eleva a nossa consciência colectiva.

(...) Ninguém é "amigo" do Chefe da Casa Real, como os Reis não têm "amigos". Os monárquicos não são "amigos" daquele que representa o país, o seu passado e o seu futuro. Devem servi-lo, como quem serve a pátria. Os senhores presidentes, esses sim, têm amigos e inimigos, protegidos e adversários. (...)


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Dinastia de Bragança e o Berço da Democracia Moderna

 


“Conforme as regras de direito natural, e humano, ainda que os Reinos transferissem nos Reis todo o seu poder, e império para os governarem, foi debaixo de uma tácita condição de o regerem, e mandarem com justiça, sem tirania, e tanto que no modo de governar usarem delas, podem os Povos privá-los dos Reinos, em sua legítima natural defesa.” Foi assim que em 1641, no assento das cortes, justificámos a revolta e sublinhámos a legitimidade democrática de D. João IV. Escrito “aos 5 dias do mês de Março de 1641”, o texto prova que vieram dos portugueses as primeiras ideias iluministas da história [“iluminismo representa a saída dos seres humanos da menoridade que estes se impuseram a si mesmos”], anos antes da era da razão, 135 anos antes da Declaração de Independência dos EUA – “[...] sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins [vida, liberdade e felicidade], cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la” – e 148 anos antes de Paris forjar os Direitos do Homem e do Cidadão – “Nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela [nação] não emane expressamente”.  Ler mais»»»


 


 


Filipe Paiva Cardoso no jornal i 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma Causa Política

 


Em declarações à imprensa há uns anos, o republicano José Ribeiro e Castro considerava constituir um incalculável privilégio para um País com a nossa história, mais ainda quando ameaçado por uma sinistra crise de soberania nacional, possuir uma tão venerável quanto unânime Casa Real. Apesar da improvável origem destas sábias declarações, essa é quanto a mim a principal e mais preciosa motivação para a minha militância monárquica. Trata-se afinal de uma simples mensagem sobre Esperança. Um país com quase 900 anos de história bem merece exibir no topo da pirâmide do Estado uma isenta instituição transgeracional, exclusivamente vocacionada para o serviço público, contribuindo decisivamente para a materialização de uma Nação una e para a conciliação dos diversos interesses, facções e corporações que pela sua natureza se digladiam, organizadas em inevitáveis “partes” e “partidos”.
Tamanha tarefa choca no entanto com a incontornável realidade: destituídas de recursos materiais e humanos, as estruturas da Causa Real as reais Associações, salvo honrosas excepções, roçam a inexistência reduzidas à participação em jantares, efemérides e cerimónias religiosas.
Para começarmos a contrariar esta lógica, teremos de entender definitivamente a Causa Real como uma organização intrinsecamente política. É como tal que deveria ser assumida pelos seus líderes que, para todos os efeitos, deverão assumir-se também como políticos. Mas acontece que as Reais Associações não têm militantes, têm sócios, e, ainda por cima, difíceis de mobilizar para este ambicioso projecto: promover eficazmente a utilidade, notoriedade e reputação da sua Casa Real.


 




Urge assim alterar as nossas prioridades para uma intervenção aglutinadora de ideias e para a disputa do espaço mediático, seja ele analógico ou digital, físico ou virtual. A nossa prioridade não é convencer os monárquicos a serem mais monárquicos, mas cativar o homem da rua que hesita entre a simpatia e o preconceito, usando uma mensagem clara e atractiva.
Deste modo, defendo que compete às Reais Associações imiscuírem-se nas discussões de temas económicos, nas questões políticas candentes do país que é de todos nós. É paradigmática a facilidade com que conseguimos juntar oitocentas almas num jantar elegante à volta da Família Real, ao mesmo tempo que somos impotentes para reunir mais de vinte e cinco militantes a discutir temas importantes da actualidade política. Não animamos um núcleo estudantil, não temos voz nos partidos políticos. É irónico como enchemos igrejas pelo menos duas vezes por ano e não conseguimos juntar três bandeiras da monarquia num jogo da selecção nacional para atrair a atenção do cidadão comum. A pergunta que sobeja é esta: está a nossa organização condenada à insignificância dum grupo de patuscos saudosistas? Que mudanças organizacionais são necessárias para operar inversão deste declínio?
Há três anos consecutivos que a Causa Real vem disputando o palco político proporcionado pelo 5 de Outubro com considerável sucesso, sempre granjeando protagonismo através de entrevistas e reportagens nos telejornais, imprensa e rádios nacionais e regionais. Por outro lado a Causa Real anuncia neste número do Correio Real a criação de dois grupos de trabalho, a Comissão Política e a Comissão Económica, por forma a reforçar-se a sua a componente política e substanciar o argumentário económico-financeiro para uma restauração da Instituição Real.
Num panorama de profundas dificuldades, há animadores sinais de uma Causa Real que ambiciona extravasar a sua relevância para o terreno que é o seu por natureza e obrigação: o político, o da conquista dum futuro de esperança para Portugal. 


 


Novembro 2011 - Texto adaptado. Publicado no boletim Correio Real nº 6 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Por uma outra Europa

 



 


 


Neste tempo de “austera, apagada e vil tristeza” que Portugal vive, por culpa de governantes sem visão, sem objectivos que não sejam os imediatos que podem gerar votos, lugares e prebendas - numa clara adulteração da democracia -, sem valores e sem rasgo, é impossível não voltar a falar da Europa como comunidade política e económica em que o País se integrou em 1986, desfeito o império ultramarino de tal forma, por culpa da imprevidência e obstinação de uns e da cegueira ideológica de outros, que reduziu mercados e espaço económico, e como âncora de salvação para a incipiente organização democrática que ainda se sentia ameaçada tanto por saudosistas da II República como por aventureirismos dos defensores dos “amanhãs que cantam”.



Apesar da adesão quase geral dos portugueses à entrada para a Comunidade Económica Europeia, que foi sendo apresentada como o novo desígnio nacional, como meio de em pouco tempo se atingir um patamar de desenvolvimento que a República do Estado Novo não fora capaz de propiciar, como forma de sairmos do ambiente asfixiante do “orgulhosamente sós” e dos milhões que foram entrando nos cofres do Estado depauperado por doze anos de destruição da economia pelos comunistas e da gestão socialista, a Europa como construção supranacional, foi sempre uma questão que a maioria da população nunca considerou como digna do seu interesse imediato. Ficou nas mãos dos políticos que foram sendo eleitos para os directórios partidários e para os governos, numa lógica de exaltação clubística, a orientação para os sucessivos passos que a CEE conheceu até se tornar na União Europeia, regida por tratados que a maioria desconhece - mesmo de muitos peões, e até torres, dos partidos que os apoiaram e aprovaram. Esses passos levaram a organização europeia a um alargamento rápido demais e pouco pensado, que gerou complexidade na gestão de interesses e naturais expectativas, à criação da moeda única, a um federalismo incipiente e travestido para não assustar nacionalismos indesejados, no pressuposto de uma solidariedade interna que tenderia à aproximação dos países mais atrasados e à estabilização geral em elevados níveis de bem-estar. Em todo este processo, um pouco por todos os países europeus e em particular em Portugal, os povos não foram chamados a pronunciar-se sobre as sucessivas perdas de soberania e muito menos lhes foi explicado cabalmente o verdadeiro significado dos passos dados em seu nome.

Depois sobreveio a crise nascida nos EUA que contaminou a Europa, a que se foram somando as crises internas de países que, novos-ricos mercê dos fundos europeus, acreditaram que já tinham atingido o patamar de desenvolvimento dos que eram remediados mas presumiam de ricos e, fiados na sua solidariedade inesgotável, resolveram viver nessa nova condição.

Os nacionalismos encapotados dos mais ricos, a impaciência para com a presunção dos novos-ricos que se endividaram até à mendicidade, levou a que em vez de se recuar num projecto que, por irrealista, estava condenado ao fracasso, se queiram dar novos passos no sentido do federalismo, mas tendo como motor e futuros beneficiários, em termos de poder efectivo, os estados que os impuseram. A estratégia de Bismark e os sonhos de Hitler que se entrelaçam com o de Napoleão, numa versão moderna e dual de domínio da Europa.

Portugal, desperto apenas quando o apertar do cinto estiver a atingir o último furo, começa agora a perceber, embora lentamente, ao que esta cegueira política seguidista em relação aos partidos federalistas conduziu. Mas também em relação aos que, e foram todos os dos arco governativo, trocaram a soberania por um prato de lentilhas, acreditando que bastava comê-las, sem tratar de semeá-las e colhê-las, para que este de novo se enchesse.

Na crise que a Europa comunitária atravessa, a sua implosão seria muito pior do que a sua manutenção, mas é urgente que seja alterada a sua concepção federalista para uma Europa das nacionalidades. Como escreveu Guilherme de Oliveira Martins recentemente,” Falar da Europa das nacionalidades é, pois, compreender a História, lançando as bases de uma realidade política e institucional capaz de definir os interesses e valores comuns e de defendê-los, preservando as diferenças e fazendo delas um factor de encontro, de paz e de preservação do património cultural comum. A herança e a memória devem assim encontrar-se. A Europa precisa, no fundo, de entender o que a une e a divide, para que possa tornar-se uma União activa de Estados e Povos livres e soberanos”.

É esta concepção da Europa que pode ajudar Portugal na sua caminhada para o desenvolvimento económico, social e cultural, preservando a sua soberania e contribuindo com a sua identidade, forjada em quase nove séculos, para o todo comum.



João Mattos e Silva in Diário Digital (19-Dez-2011) 


 

Um retrato cheio de história

O quadro que reproduzo neste artigo é um retrato a carvão de Dom Duarte Nuno de Bragança, desenhado pela minha bisavó, Valentina da Silva L...