terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Temos aquilo que merecemos (já vos tinha dito)



"Sabemos, por instinto, que isto não chega. Que é preciso haver alguém. Um agente. Um procurador. Alguém que, em nome do “nós”, esteja diante dos outros. Um “nós” feito dos que estão vivos, dos que estão mortos e dos que ainda estão para vir. Exactamente onde todo o acto político devia começar. Na obrigação para com quem não pode responder.

Antigamente isso resolvia-se de forma simples. Havia um Rei. Morria o Rei, vinha o filho. Como antes dele viera o pai. Assunto encerrado. Não porque os reis fossem virtuosos por definição, mas porque a ideia de legitimidade traz consigo uma força que nenhuma eleição para Presidente da República consegue reproduzir."

 

Manuel Fúria, Revista Visão "A questão da Questão Monárquica" 09.01.26



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A campanha para as eleições presidenciais está mais acesa do que nunca, destacando-se pela imprevisibilidade do resultado, algo pouco comum nas últimas décadas. O clima de competição acirra a vaidade dos candidatos, pois trata-se de uma eleição uninominal, onde cada um luta pela sua própria figura. Este contexto tem proporcionado um espectáculo pouco edificante, especialmente se considerarmos que o cargo em disputa é o de Chefe de Estado, cuja função deveria ser representar toda a nação. Para qualquer observador atento, esta realidade deveria causar perplexidade. Dir-me-ão os leitores que me repito, e eu dou-lhes razão: é inevitável passados tantos anos e várias eleições presidenciais que me repita, facto que só comprova a minha coerência.  

O que distingue esta eleição das anteriores é a intensidade do confronto, resultado do elevado número de candidaturas que se encontram empatadas nas sondagens. Apesar dos conflitos e das acusações mútuas, há a convicção de que, com o tempo, tudo será esquecido e o eleito acabará por ser visto como “presidente de todos os portugueses”. A população, por sua vez, tende a conformar-se, desde que a sua rotina permaneça inalterada “a vida como habitualmente”, perpetuando o sentimento de marasmo que parece adiar continuamente o desenvolvimento do país. Este conformismo só é possível porque (ainda) não existe um problema de nacionalidade: o território, as fronteiras e a língua estão há muito estabelecidas – estamos solidamente incrustados no ocidente da Europa, e do mar que um dia foi porta para o mundo, ainda aproveitamos a vista. A religião, um factor em tempos de estabilização social, veio perdendo importância na definição da identidade. E não foi por culpa dos árabes, paquistaneses ou hindus, muito menos por culpa dos brasileiros ou africanos.

Não sei se é sorte ou maldição o país (todos nós) em que nascemos. Só os portugueses para aguentar e pactuar com a mais chocante falta de institucionalismo que foi a marca de Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo esforçou-se por todo o mandato a provar-nos que o seu cargo era inútil, uma supérflua redundância, a querer-se um igual aos outros, com as liberdades de todos, fosse a mudar de roupa em público na Baia de Cascais ou a debitar banalidades e inconfidências entre copos de ginjinhas perante o embaraço dos compatriotas. Mas o que não precisamos certamente é de um Chefe de Estado que se reclame progressista, reaccionário, socialista ou liberal. O país dispensa um chefe de facção disposto a envergonhar-nos com ideologias a promessas de amanhãs que cantam.

Falta ainda à sociedade portuguesa a consciência do poder individual que cada de nós possui para ser protagonista da própria vida, agindo com generosidade e ambição. Não é sensato depositar esperança em “homens providenciais” que se reclamam capazes de transformar o país ou libertar a economia a partir de Belém ou de São Bento. Esse papel deveria caber a cada português, consciente da sua liberdade e responsabilidade. Só uma rede de comunidades autónomas e empreendedoras, famílias, concelhos e cidades, com organismos intermédios feitos por homens livres e comprometidos, seria merecedora de um Estado verdadeiramente neutral.

João Távora

sábado, 3 de janeiro de 2026

Nunca é tarde para a redenção

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"A situação de Portugal, depois de proclamada a República - afirmou Fernando Pessoa - "é a de uma multidão amorfa de pobres diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano - para o descrever com brandura - foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos." (...) "Mas através de tudo, e até nas almas de muitos desses bandidos - acrescentava Pessoa - subsistia qualquer coisa impulso lírico do ideal originário. E assim se via bandidos da pior espécie - gatunos de alma, vadios orgânicos -baterem-se com bravura pelo ideal que julgavam que tinham."


Fernando Pessoa in 'Interregno', 1928, citado por António Valdemar, na Revista do Expresso de 26 Dez. 2025


"Recordas-te, Luís, de um dia me dizeres na tua casa [...] que o erro iacobino havia de morrer em mim, por incompatível com a sinceridade que eu lhe consagrava, e que os meus olhos se abririam para as verdades eternas? Pois, meu amigo, meu Irmão. leste fundo na minha alma e com alegria te conto a minha conversão à Monarquia e ao Catolicismo - as únicas imitações, que o homem, sem perda de dignidade e orgulho, pode ainda aceitar. E eu abençoo. Eu abençoo esta República trágico-cómica que me vacinou a tempo pela lição da experiência que livrou a minha existência de um desvio fatal."


Trecho da carta de António Sardinha a Luís de Almeida Braga a 30 de Dezembro de 1912, citada por José Manuel Quintas na introdução aos 'Ensaios Escolhidos' publicado por Crítica XXI de Dez. 2025

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Mensagem de 1 de Dezembro de 2025

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Portugueses,


Reunimo-nos hoje, na véspera do Primeiro de dezembro, para celebrar a Restauração da Independência de Portugal em 1640, símbolo da nossa determinação em preservar a identidade e a soberania como povo livre.


Ao recordarmos este momento histórico, lembramos que os princípios da Restauração: a fé, a ordem, a defesa da liberdade e da soberania permanecem essenciais à nossa convivência democrática.


Num mundo em constante mudança, é vital reafirmar estes valores, protegendo a nossa identidade e coesão social, em harmonia com a participação, pluralidade e os direitos de todos.


O equilíbrio entre abertura e soberania é um desafio


A Lei dos Estrangeiros deve refletir o equilíbrio entre a tradição de hospitalidade portuguesa e a proteção dos interesses soberanos do Estado. Portugal sempre recebeu diferentes povos e culturas, mas a experiência histórica ensina que a abertura deve ser acompanhada de prudência, responsabilidade e respeito pelas normas nacionais.


Num mundo marcado por migrações e ameaças complexas, esta lei deveria ser mais que um instrumento administrativo, deveria ser também um meio de proteger a soberania e a segurança coletiva, promovendo inclusão e vigilância. Guiados pelo espírito cristão, devemos assegurar que todos, nacionais e estrangeiros, contribuam para o bem comum, respeitando a cultura e os valores de Portugal.


Tal como os Conjurados da Restauração enfrentaram os desafios do seu tempo, hoje cabe-nos garantir que a Lei dos Estrangeiros proteja os interesses nacionais sem perder de vista a dignidade de quem escolhe Portugal como lar, fortalecendo a unidade e a resiliência democrática da nossa sociedade.


A minha recente visita ao Bangladesh, acompanhado pela minha Família, assume um significado especial num momento em que muitos migrantes bengaleses em Portugal enfrentam episódios de discriminação. Este gesto diplomático e simbólico ajuda a recordar a profunda tradição histórica portuguesa de abertura ao mundo e de respeito pelas comunidades que connosco constroem o país.


Ao deslocar-me ao Bangladesh, reafirmo não só a valorização da diáspora que escolheu Portugal como destino, mas também o nosso compromisso moral com a dignidade humana, independentemente da origem. É um sinal claro de que aqueles que vivem e trabalham entre nós fazem parte da nossa comunidade e merecem reconhecimento, proteção e respeito.


Esta visita é um espelho do país que queremos ser: um Portugal, que sempre foi de migrantes, consciente da sua própria história, fiel à sua identidade plural e orgulhoso de estender a mão a quem o procura para viver com segurança, esperança e futuro.


A visita à Hungria


Este ano foi também para a minha Família e para mim uma honra regressar à Hungria e ser recebido pelas mais altas figuras do Estado, num encontro que reforçou os laços históricos e culturais que unem os nossos dois Povos. Nesta visita, tivemos oportunidade de refletir sobre temas essenciais, como a importância da Família, a preservação das nossas tradições e a necessidade de enfrentar de forma responsável o desafio da imigração ilegal. Defender a legalidade e a dignidade humana não é contraditório com a abertura ao mundo, pelo contrário, é complementar. Tal como sublinhei na recente deslocação ao Bangladesh, Portugal tem o dever de respeitar e apoiar aqueles que escolhem o nosso país por vias legítimas, integrando-se e contribuindo para a nossa sociedade. Combater a imigração ilegal significa precisamente proteger essas comunidades, garantir justiça e assegurar que o acolhimento se faz com ordem, respeito e humanidade.


Complexidade das Ameaças Modernas: Guerra Híbrida


A guerra fria reentrou no vocabulário do dia a dia, a ameaça nuclear paira de novo. As ameaças à soberania e à democracia assumem formas subtis e, por vezes, impercetíveis. A guerra híbrida é, talvez, o maior desafio à nossa capacidade de defesa coletiva. Trata-se de um fenómeno complexo, que combina métodos convencionais e não convencionais, onde a desinformação, a manipulação das redes sociais, os ataques cibernéticos e a pressão económica se cruzam com tentativas de enfraquecer a nossa coesão interna e a confiança nas instituições.


É imperativo que saibamos identificar, compreender e responder, de forma prudente e determinada, aos novos perigos que se colocam à nossa liberdade.


A defesa contra a guerra híbrida exige vigilância, cooperação entre instituições, educação cívica e tecnológica, bem como uma cidadania informada e ativa. Não basta confiar na força das nossas tradições; é preciso adaptá-las aos desafios do século XXI, sem nunca abdicar dos nossos valores essenciais.


A Causa da Lusofonia


Ao celebrarmos o 1º de Dezembro, não evocamos apenas a Restauração da Independência de Portugal, mas afirmamos a dimensão global da nossa língua e dos valores que nos definem enquanto povo. Entre esses valores, a Família ocupa um lugar central: é onde se constrói a identidade, onde se transmitem costumes, memórias e sonhos. É também o elo fundamental que nos liga a todos os que, espalhados pelos cinco continentes, falam português e partilham da nossa história.


Com mais de trezentos milhões de falantes, a lusofonia não é apenas um património linguístico: é uma comunidade viva de culturas, valores e responsabilidades. A herança desta língua exige de nós orgulho e dever. O dever de manter vivos os laços que unem Famílias, comunidades e nações, e de promover a cooperação entre todos aqueles que partilham desta tradição.


O futuro da lusofonia depende da nossa capacidade de reforçar esses vínculos: através do ensino da língua, do respeito pela diversidade, do fortalecimento das relações entre países e comunidades lusófonas, e, acima de tudo, da proteção da Família como berço dos cidadãos de amanhã. Só assim podemos construir sociedades democráticas, justas e seguras, onde cada indivíduo encontra lugar para crescer, contribuir e sonhar.


Por essa razão estive presente há alguns meses na 4ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, em Timor-Leste. Uma instituição esquecida por muitos em Portugal, mas que faz essa ligação entre os vários povos de raiz portuguesa que referi anteriormente.


Que este 1º de Dezembro nos lembre de que Portugal não é apenas a sua história ou o seu território, mas também a comunidade de almas que, em cada canto do mundo, continuam a falar, a ensinar e a viver a língua que nos une.


Neste contexto foi com grande alegria que a minha Mulher e eu tivemos a oportunidade de tornar a visitar Goa onde fiquei encantado por reencontrar a força da Memória Portuguesa na população, na arquitectura e na hospitalidade.


Presidenciais


No início do próximo ano vamos ter eleições presidenciais. É nestes períodos de transição que se torna legítimo refletir sobre o modelo político que melhor corresponde à identidade nacional e às aspirações do povo. Talvez este seja o momento de revisitar, com serenidade e espírito histórico, a solução monárquica como fator de estabilidade, continuidade e unidade. Não como recuo ao passado, mas como possibilidade de renovação, ancorada numa tradição que sempre procurou colocar a nação acima das disputas partidárias. O importante, acima de tudo, é que Portugal encontre o caminho que mais profundamente reflita a sua alma e a sua história.


Visita a Sua Santidade


Foi com profunda emoção que, acompanhado pelo meu filho, Dinis, fui recebido há mais de um mês por Sua Santidade o Papa Leão XIV. Nesta ocasião solene, transmiti ao Santo Padre os cumprimentos e votos de fidelidade da Família Real Portuguesa para o pontificado que agora se inicia, desejando que o seu ministério seja fonte de paz, esperança e renovação espiritual para todos os povos. Tive igualmente a honra de apresentar os novos símbolos da Ordem do Arcanjo São Miguel, símbolos que recuperam a heráldica original, preservando a memória e a tradição que lhe estão associadas. A Ordem, fortalecida por delegações espalhadas pelo mundo, tem adquirido um papel de grande relevância, particularmente junto das comunidades do Leste europeu que enfrentam as duras consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A nossa missão, mais do que nunca, é apoiar, proteger e inspirar aqueles que sofrem, reafirmando que a fé, a honra e o serviço ao próximo continuam a ser pilares essenciais da identidade portuguesa.


Conclusão


Ao celebrarmos a restauração da independência, lembremos que a nossa voz ecoa em trezentos milhões de lares, escolas, praças, parlamentos e, sobretudo, Famílias. Que saibamos honrar este património, cuidando da nossa língua, promovendo a união entre todos os que a partilham e defendendo a Família como base da sociedade. Assim, continuaremos a ser, juntos, protagonistas de uma história comum feita de liberdade, fraternidade, esperança e de laços Familiares inquebrantáveis.


É este o compromisso em que a minha Família e eu próprio estamos empenhados e comprometidos, sempre à disposição dos Portugueses para servir no que for entendido como necessário.


A minha Família e eu desejamos a todos um Santo Natal e um ano de 2025 abençoado por Deus!


Viva Portugal!


D. Duarte

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Uma declaração de desvoto

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Nos próximos meses a contenda vai agitar-se, a cadeira de Chefe de Estado está a vagar e há que lá sentar uma personalidade nacional que satisfaça uma significativa proporção de portugueses, capazes de o exibir na lapela. A expectativa do regime, uma ilusão benigna, é que no final da contenda todos se sintam representados por essa figura. Evidentemente que tal ensejo é irrealizável, mas todos nos conformámos com o circo. No dia seguinte ás eleições, os eleitores assistirão a um processo de erosão, de desmistificação do eleito, fenómeno que, basta consultar os jornais, se repete inexoravelmente desde o início desta terceira república. Os crachás cairão das lapelas dos adeptos, mesmo dos mais fervorosos, como folhas secas no outono. A questão está no facto das pessoas terem memória curta e por isso não discernirem que o problema não está no malabarista que ocasionalmente é inquilino de Belém, mas na arquitectura retorcida e ineficaz do regime de Chefe de Estado que nos coube em azar. Todos saberão o que eu penso do assunto, não nos detenhamos nisso.

A relativa novidade da eleição que se avizinha, é a excepcional partidarização e consequente atomização dos profusos candidatos que se propõem ir a votos. Da esquerda extrema à direita trauliteira temos protagonistas para várias sensibilidades partidárias, sendo naturalmente o centro do bolo a fatia mais cobiçada. O sectarismo das candidaturas é, no entanto, indisfarçável, facto que, tendo em conta o papel que cabe a um Chefe de Estado, de representar toda uma Nação, não deixa de ser estranho. Se não vejamos: Marques Mendes foi o candidato presidencial anunciado no congresso do PSD, e prepara-se para receber o apoio do CDS, ou seja, será o candidato da AD. Mesmo que sem apoio unânime, António José Seguro, destacado militante socialista, obteve a anuência do seu partido para tentar finalmente reconquistar o Palácio de Belém para a esquerda, de lá apeada há 20 anos. André Ventura candidata-se para aumentar a base de apoio do Chega, fazer tanto barulho quanto possível, perorar contra os ciganos e contra os imigrantes – entretenimento puro para o comentariado e para os debates. Em termos de espalhafato só lhe faria frente a Joana Amaral Dias que, no entanto, não goza de grande simpatia nos Media. A Catarina Martins caberá a ingrata tarefa de levantar as bandeiras do Hamas, das minorias LGBT, e as franjas esquerdistas do PS, entre outras micro-causas, sempre contra o "patriarcalismo reaccionário". Imaginem a mensagem de Ano Novo da presidenta Catarina Martins se ganhasse as eleições. Mais abrangente será o discurso de Cotrim de Figueiredo, mais um a disputar o centro a Marques Mendes, e a fincar o seu partido na agenda das presidenciais. Admirável é a fidelidade dos comunistas ao seu eleitorado em vias de extinção, no boletim constará orgulhoso António Filipe que se sacrifica a correr para Belém.

Desenganem-se aqueles que, por eu ser um conservador, pensam que tenho alguma predilecção por militares, fardas ou patentes. Como a história dos últimos duzentos anos nos reclama dos livros, foram mais as vezes que as suas intromissões na política deram asneira do que o contrário. Escuso de listar aqui uma interminável lista de sinistras personagens fardadas que nos fadaram a este triste destino. Não é por isso que nutro alguma simpatia pelo Almirante Gouveia e Melo, cuja candidatura emerge fora dos partidos. Se os partidos são importantes numa democracia liberal, parece-me redutor que tudo se tenha de cingir a eles e às facções que representam na vida pública. E se, na lógica “republicana”, faz sentido o presidente emergir das facções em litígio, também deveria ser natural que a sua eleição obedecesse a outra ordem de razões – nem sempre, nem nunca. Já o disse aqui há atrasado: a mim, parece-me que a figura de Gouveia e Melo é o que vislumbro de mais parecido com um Chefe de Estado independente, sóbrio, austero e patriota - o rei.

O campeonato das presidenciais definitivamente não é para mim que disso sou objector de consciência, mas entristece-me ver tanto preconceito contra o único candidato apartidário. Tiranizado o espaço público pela hegemonia partidocrata, seria uma boa surpresa para mim que o Almirante passasse à segunda volta.

João Távora

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Continuidade e referência

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Neste número da revista Correio Real em que se assinalam as efemérides festejadas recentemente pela nossa querida Família Real temos o dever de realçar as boas notícias no campo dos monárquicos. Acontece que, aos dias de hoje, podemo-nos congratular com a quase completa extinção, de morte natural, do velho jacobinismo republicano. O jacobino revolucionário à francesa, que deu expressão ao “politicamente correcto” do século XX português, tornou-se irrelevante. Bem sabemos que, enquanto vão desaparecendo os últimos exemplares dessa gente maldisposta e ressentida, minoritária, mas ruidosa, que por tanto tempo dominou o espaço público nacional, uma nova variante do vírus vai desabrochando com outros sintomas igualmente perversos. O seu ódio corrosivo já não é dedicado ao rei, mas à identidade portuguesa – agora somos mais, assim nos saibamos defender.

Mas é esse moribundo radicalismo que explica como foram duros os desafios travados durante décadas pelo Senhor Dom Duarte na afirmação das suas causas.  Explica porque esses herdeiros de Afonso Costa resistiram de forma tão obstinada e mesquinha a agradecer ao Duque de Bragança os seus precoces, continuados e persistentes esforços para a Independência de Timor em 2002. O Povo de Timor, ele mesmo, tratou de saldar essas contas, como sabemos.

Curioso foi o testemunho que ouvi dum jovem angolano condutor de Uber, cuja nacionalidade era denunciada pela emissora de Luanda que o mostrador do rádio exibia. Para fazer um pouco de conversa, perguntei-lhe se era natural da capital de Angola, ao que o rapaz me respondeu que não, que era oriundo de Cabinda. Então, aproveitando a atenção do seu interlocutor, desabafou com espontaneidade a sua genuína preocupação com os problemas deste riquíssimo enclave, a opressão do seu povo que anseia por outra atenção do governo central. Com um discurso estruturado na descrição desse sensível imbróglio político, foi com surpresa que o ouvi tecer rasgados elogios ao Duque de Bragança, pela sua independente e corajosa posição a respeito do diferendo.

De facto, longe dos holofotes e sem reclamar reconhecimento, o Senhor Dom Duarte, além das estradas e caminhos de Portugal, que conhece como poucos, há décadas que percorre os territórios e visita as mais recônditas comunidades da lusofonia onde é acarinhado e muito respeitado, sempre a construir pontes e a semear laços de paz.

A outra boa notícia que gostava de assinalar nestas linhas é a consolidação institucional da Casa Real portuguesa e o crescente estreitar da sua relação com os portugueses. A solidez de uma instituição serve para defendê-la das contingências e circunstâncias imponderáveis, é garantia de futuro. Esta consolidação tem, nos últimos trinta anos, nomes e caras: os Duques de Bragança, Dona Isabel e Dom Duarte.

João Távora

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P.S.: No passado dia 26 de Julho o Senhor Dom Duarte de Bragança apadrinhou a assinatura de um protocolo com a Montis, Associação para a Gestão e Conservação da Natureza. O rei, o terrtório e as suas gentes é uma bela conjugação. Saiba mais AQUI


Texto adaptado do editorial da revista Correio Real nº 31


 

sábado, 5 de julho de 2025

Para ilusão benigna, escolha-se uma realista

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A cena repete-se a cada cinco anos, com mais ou menos despudor, mais ou menos confrangedora, o posicionamento dos putativos candidatos à disputa eleitoral para a corrida a Chefe de Estado de Portugal. Este ano a particularidade é a candidatura de um militar que concorre à margem dos partidos, numa clara aproximação à estética monárquica, suprapartidária. E entende-se bem porquê.

Se os partidos constituem alicerces fundamentais, reguladores das diferentes tendências ou concepções ideológicas rivais que despontam da sociedade, sempre conflitual e competitiva, no modelo constitucional português, herdado do liberalismo monárquico, parece-me redundante, e até equívoco, o costume de o Chefe de Estado emanar dum partido político. Tirando o caso de Ramalho Eanes tem sido assim sempre desde o 25 de Abril. Tal acontece na ingénua presunção de que, no dia seguinte às eleições, os portugueses adiram à ilusão de que o mais alto magistrado da Nação tenha fechado as suas convicções sectárias a sete chaves num baú atirado à Fossa das Marianas. E que as suas pretéritas actuações no palco das quezílias partidárias não tenham passado de dramatizações artificiais para a conquista do poder. Mais um prego para o caixão do sistema.

A natureza humana é aquilo que é, e pouco haverá a fazer para a domesticar, sem ser com muita violência. Uma sociedade saudável é inevitavelmente conflituosa, competitiva, inquieta, combativa. As disputas emergem a cada momento nas famílias, nas empresas, em qualquer organização social. Aquilo a que chamamos “civilização” é a regulação eficiente dessa conflitualidade e a mitigação dos perigos inerentes aos excessos que essa violência implícita comporta, às vezes com pulsões de morte. É neste âmbito que se compreende a estruturante eficácia dos partidos, que são instrumentos de conquista de poder, um dos mais letais instintos humanos. Por isso, quando vejo deputados no parlamento à beira do histerismo a esgrimir argumentos, a disparar palavras e frases bombásticas com os seus antagonistas no lugar de espadeiradas ou rajadas de metralhadora, fico contente com esses sinais de civilidade. As fúrias ficam-se por palavras, e as razões revestem-se em ideais, mais ou menos sofisticados, mais ou menos nobres. Mas no início, lá bem no fundo, está um inevitável instinto guerreiro, uma propensão existencial para o conflito e para a contenda, uma inquietação voraz de poder. É inegável a eficácia das democracias liberais na mitigação destas autofágicas pulsões humanas.

Já não entendo é a necessidade que se proclama no espaço público de que o chefe máximo da nação participe e provenha desse teatro de guerra. Somos, como seres humanos, criaturas únicas e irrepetíveis, muito mais do que as nossas crenças e convicções. Por isso é que acredito, que um país antigo como o nosso merecia, no topo da pirâmide do Estado, em contrapeso com a restante arquitectura, uma instituição mais representativa da nossa identidade, mais agregadora, realmente independente das inevitáveis refregas entre os grupos de interesses e pertenças sectárias. A Pátria em figura humana.

E não me conformo que esta discussão não desponte no espaço público, viciado no degradante circo, na despudorada hipocrisia que consiste a disputa das putativas candidaturas a Presidente da República. Uma tristeza muito grande.

João Távora


Publicado originalmente aqui

sexta-feira, 20 de junho de 2025

A glória e o prestígio das instituições

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A motivação para a disputa política (em termos latos) na assunção de cargos de relevo público é um tema que me vem merecendo reflexão. O que atrai um individuo a ir à luta dentro de um partido ou organização cívica? É possível a criação de incentivos para envolver “os melhores” da nossa comunidade para as maçadas e sacrifícios que implicam as causas públicas?

Sou daqueles que considera ser importante uma justa remuneração dos altos cargos políticos, algo que não acontece nos nossos dias. Actualmente a assunção de um cargo de responsabilidade num governo ou autarquia implica, para uma pessoa habilitada e perfil para as funções, um sacrifício pessoal em matéria de vencimento. Mal comparado, como no séc. XIX em que só aqueles que tinham fortuna familiar podiam ambicionar a uma carreira política. Esse facto provavelmente afastava muita gente com muito mérito e apetência.

Mas confesso que não acredito que o dinheiro tenha assim tanto peso na discriminação dos “melhores”. A vida tem-me demonstrado que a grande maioria das pessoas que alcançaram cargos de relevância pública o fizeram movidas por um instinto de combatividade, um “bichinho” indomável, acompanhado por mais ou menos idealismo. Algo que nasce com as pessoas. Ou seja, parece-me que a principal motivação, para diferentes funções e graus de responsabilidade e escala de relevância pública, quem na sociedade civil se envolve neles o faz por inconformismo. Por causa duma inquietação existencial inata, que na maior parte das vezes vai conduzir o individuo a funções de liderança ou de relevância social. Não me parece de todo que a motivação material seja o factor preponderante na escolha dum percurso desses.

Naquilo em que eu acredito é no peso do prestígio das instituições para a atracção dos melhores. A escolha de despender energias, de devotar e sacrificar a vida num determinado cargo público, tem principalmente a ver com a autoridade que emana dessa função. Definitivamente a atracção da glória, do reconhecimento social, é um factor muito mais determinante que o material.

Daí que, antes de tudo o mais, o mais importante, e, no entanto, o mais difícil para a atracção dos melhores, seja o prestígio das instituições a que se concorre. Sei bem como é difícil inverter a lógica da “má moeda que afasta a boa moeda”, da rampa deslizante em que se vêm desgastando o prestígio das mais importantes funções do Estado.

E como bem sabem V. Exas., quanto a mim devíamos salvaguardar desta lógica mesquinha e imponderável o mais alto magistrado da Nação.

João Távora

Um retrato cheio de história

O quadro que reproduzo neste artigo é um retrato a carvão de Dom Duarte Nuno de Bragança, desenhado pela minha bisavó, Valentina da Silva L...