segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Bilhete aberto ao Dr. Fernando Nobre



Ex.mo Senhor Dr. Fernando Nobre:



Quando soubemos, nós monárquicos portugueses, do seu propósito de se candidatar à Presidência da República, foi grande a satisfação. Viviamos um ano difícil - o do famigerado Centenário - e o nosso combate, não sendo eleitoral, correspondia à nossa indignação face às mais descaradas mentiras históricas que iamos ouvindo da boca dos próceres deste Regime que ruiu Portugal.

A sua iniciativa - a candidatura presidencial de um filiado na Real Associação de Lisboa - entusiasmou-nos. Não era caso inédito - lembre-se o Almirante Canto e Castro - e seria a oportunidade de pôr cobro ao ostracismo, à desinformação malévola, à demagogia. Seria um passo importante rumo ao Futuro, no sentido, exactamente, em que os seus cidadãos - e foi esse o seu lema: a cidadania - poderiam livremente expressar as suas ideias sem o risco contínio do desvirtuamento pela Imprensa, pela classe política instalada...

Mas depois percebemos: nada lhe interessava o seu monarquismo fosse, sequer, comentado. Era-lhe embaraçoso. E, respeitando os seus receios, as suas estratégias, o tema morreu aí.

Morreu, é como quem diz. A minha geração e as gerações mais novas de monárquicos já se cansaram de meias palavras, do políticamente correcto. A Monarquia, sendo uma opção de Regime, não cabe dentro de um partido político. De modo que funcionamos sem disciplinas ou arregimentações, cada um é livre de agir em obediência, apenas, à sua consciência.

Mas os resultados estão aí. Sei de muitos monárquicos votantes em V. Ex.cia. Sei de outros mais que optaram pela reeleição de Cavaco, pelo surrealismo de Coelho, mesmo - é verdade! - pelas éticidades de Alegre. O que não tira se deva ler corretamente os 53,38% de abstenções; os 4,36% de votos brancos (porque pensa V. Ex.cia que me dei ao incómodo de passear até à secção de voto?); os 1,93% de votos nulos.

Em mais de metade do eleitorado será de acreditar na desinformação, e restringir estes números a uma ilacção de preguiçosos, insatisfeitos, castigadores e analfabetos?

Na passagem do seu centenário, a República, Sr. Dr. Fernando Nobre, foi definitivamente posta em causa. E a Monarquia só não se vê à flor da pele de cada intervenção política - porque os monárquicos não são, efectivamente, políticos. No sentido de ser impossivel organizá-los, num quadro partidário fundado em ideologias, em relação às quais não procedemos como procederam os fundadores do Partido Repúblicano.

Para terminar, Sr. Dr. Fernando Nobre - agora que lá vão as eleições - a sua candidatura de cidadania, em suma, só não foi muito mais expressiva (indo buscar gente à abstenção, aos brancos, aos nulos) porque V. Ex.cia - estratégicamente - quis ocultar uma faceta importante do seu ideário político. E nós estamos fartos de quem não dê, plenamente, a cara pela Causa em que crê.

No mais, aceite as minhas felicitações. Numa campanha marcada por ataques pessoais e escândalos farejados, V. Ex.cia traçou a diferença. Foi - coisa rara... - sempre bem-educado.


Com respeitosos cumprimentos,


João Afonso Machado



3 comentários:

  1. Por sinal, nada teria perdido e manifestar a sua filiação na Causa. Pelo contrário, ganharia muitos votos. Deu um tiro no pé e desagradou-nos de sobremaneira! Bem vistas as coisas, os monárquicos apelaram abertamente à abstenção. O resultado foi o que esperávamos.

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    1. Mais grave do que o não assumir do "monarquismo" de Fernando Nobre, foi o facto de inúmeros monárquicos terem feito campanha por alguns candidatos...!
      Estamos tal e qual no tempo de D. Carlos I... só que desta feita, numa república sem monárquicos!
      Insisto nesta questão porque não vi ninguém incomodar-se com este facto...!
      A Causa Real e a sua Direcção não possuem um projecto restauracionista... são uma feira de vaidades!

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    2. À minha maneira, e sem dominar a matéria, sinto-me monárquico. As razões que me levam a tal não interessam para este tópico. Porém, movimento-me na internet nos sítios onde acho que os textos publicados fomentam e esclarecem sobre a causa. Ao fim de algum tempo na recolha de informação sinto exactamente - embora sem provas concretas - que "A Causa Real e a sua Direcção não possuem um projecto restauracionista... são uma feira de vaidades!". É verdade. Basta ir ao respectivo domínio na internet. O que mais se lê, desde que a plataforma se tornou acessível, é "brevemente disponível".
      Parece-me que a própria Causa Real tem vergonha da causa que defende. Estão, no final de contas, todos muito bem instaladinhos, é o que é.
      E digo mais, esta coisa do politicamente correcto começa a causar-me alguma urticaria: SAR D. Duarte tem de aparecer mais.
      Sei que a minha opinião é pessimista, mas, infelizmente, a Restauração em Portugal não passa da comemoração do 1.º de Dezembro, de 1640.

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