quarta-feira, 31 de julho de 2013

Vale a pena ler! - João Carlos Espada - Público 29.07.2013

"Há cerca de cem anos, o continente europeu preparava-se para entrar numa fase de excitação guerreira em torno de sucessivas promessas inovadoras: proteccionismo e rivalidade entre impérios continentais, primeiro, marxismo e nacional-socialismo, depois. Londres iria receber, nas décadas seguintes, novas vagas de exilados, entretanto perseguidos no continente por cada uma daqueles modernismos rivais.


 


Imperturbável, Londres usufruía tranquilamente as suas liberdades conservadoras: uma monarquia estável, um Parlamento soberano, sólidos direitos de propriedade, indiscutíveis liberdades sindicais, comércio livre, estritas normas de conduta não escritas, incompreensíveis aos olhos modernistas.


As coisas certamente melhoraram entretanto no continente europeu. Mas Londres continua a viver numa atmosfera singular, dificilmente compreensível pelo racionalismo cartesiano continental. Durante a semana passada, por exemplo, e debaixo de um calor estival surpreendente, o país literalmente entrou em comoção nacional pelo nascimento do "royal baby". A chegada de George Alexander Louis, oficialmente His Royal Highness Prince George of Cambridge, foi celebrada em todo o país, bem como no Canadá, Austrália, Nova Zelândia e até na Índia.


 


As sondagens mostram enorme apoio popular à monarquia constitucional: 66% apoiam o regime, e os republicanos resumem-se a uns ténues 17%. Três quartos dos inquiridos pensam que o recém-nascido príncipe George será rei - o que significa daqui a não menos de 50 anos, pois ele é o terceiro na linha de sucessão, depois do avô, Carlos, e do pai, William.


 


A par deste renascimento monárquico, a Inglaterra vive um renascimento do eurocepticismo. Depois de Nigel Lawson e Norman Lamont, dois distintos ex-ministros das Finanças, terem publicado severas críticas ao que consideram o centralismo crescente da União Europeia, dia após dia surgem novas reclamações de devolução de poderes de Bruxelas ao Parlamento de Westminster.


 


Decidi fazer um inquérito antropológico a esta curiosa tribo insular. Comecei por jantar no Reform Club com vários antigos colaboradores da sra. Thatcher. Este é um dos tradicionais clubes liberais de Londres. Ficou célebre o comentário de uma visitante americana, perante a imponência do edifício e a solene gravidade das normas de conduta do Reform: "Se este é o clube liberal, como será o clube conservador?"


 


O jantar decorreu numa tmosfera peculiar. Os meus interlocutores acham que a União Europeia é demasiado proteccionista. Que está a fechar-se ao comércio mundial. Que a Suíça faz mais trocas com a China do que a UE. E receiam que a zona euro esteja a condenar os países do Sul da Europa a uma recessão sem fim à vista. Em contrapartida, não culpam a Alemanha. Acham simplesmente que seria melhor regressar a uma Comunidade Europeia mais solta e com mais variedade concorrencial dentro de si: "Um pouco como os clubes de Londres, está a ver?"


 


Bem, eu estou certamente a ver a ideia, e parece-me interessante: uns clubes são progressistas, outros são conservadores, e cada um governa-se a si próprio - sendo que em todos temos de usar casaco e gravata. Mas ocorreu-me uma pergunta filosófica: como poderemos garantir que os diferentes clubes se respeitarão uns aos outros? Como garantiremos que, uma vez reintroduzida a variedade na União Europeia, os Estados--nação se comportarão como os clubes de Londres, em vez de voltarem a guerrear-se entre si?


 


A resposta não se fez esperar: "Quanto mais livres, menos razões haverá para os Estados europeus se guerrearem entre si. Foi a crescente integração uniformizadora, gerada pela miragem do euro, que criou as actuais tensões entre o Norte e o Sul."


 


Isso pode ser bem verdade em teoria, pensei eu, mas não sei se funciona na prática. E, cogitando nestas dúvidas, regressei ao Oxford & Cambridge Club, cem metros ali ao lado. Foi então que descobri uma inesperada comunhão entre os dois clubes: além de ambos não terem ar condicionado, ambos partilham a comoção nacional com o nascimento do "royal baby".


 


Atrevi-me então a perguntar a um amigo progressista qual era a razão de tamanha comoção nacional com o bebé real. "Bem, mas é óbvio", respondeu-me ele. "É o símbolo da continuidade da ancestral soberania do nosso Parlamento." Depois perguntei a uma amiga conservadora. E a resposta foi igualmente óbvia: "É o símbolo da nossa ancestral soberania nacional e da ancestral soberania da nossa monarquia parlamentar."


 


Retorqui com uma inescapável pergunta filosófica continental: mas por que razão veneram ambos uma soberania ancestral? A resposta foi quase em uníssono: "Tem funcionado razoavelmente bem, não acha? Por que razão iríamos abandonar uma tradição ancestral que funciona menos mal por uma promessa incerta de perfeição modernizadora?"

1 comentário:

  1. Ao encontrar este blogue, deixo pela 1ª vez, um comentário não provocatório mas realista e pragmático…
    Nunca consegui entender a causa real por uma razão muito simples, é arquitectada em pressupostos completamente fora de moda, de um conservadorismo sem nexo, de vaidades familiares e pessoais e ainda, sem argumentos convincentes em qualquer aspecto que se discuta. No entanto, consigo perceber alguém que tenha tido um avô ou bisavô “Conde”, que defenda a causa monárquica. É simples, como os títulos aristocráticos são hereditários, essas mesmas pessoas passariam a também ser “Condes” e a ter mais importância e privilégios perante o regime. Agora, gente da plebe a atender à causa monárquica é de facto tendência que não entendo de todo… Apenas abro uma excepção… Se fosse escandinavo talvez me desinteressasse em ter ou não um rei ou até um imperador, pelo simples facto que “aquela gente” é diferente das “gentes” do sul da europa e África, com a mania da superioridade directamente proporcionais aos bigodes que alguns usam. Porventura muitos serão uns autênticos “nabos” e/ou “idiotas”, embora tenham tido a fortuna de herdar algo que nunca conquistaram com o seu próprio suor ou inteligência… Será que o sangue que herdaram afecta a estrutura mental e passem a entender que são superiores a outros tantos concidadãos? Será que é legítimo alguém nascer com direitos adquiridos?
    Para finalizar, não vou discutir as desvantagens da monarquia face ao regime republicano que estamos a viver, e, que muitos monárquicos continuam a pôr em causa… Terá defeitos, seguramente que a república os terá, embora seja um sistema infinitamente mais justo para com os seus concidadãos. Senão vejamos dois ou três aspectos; durante 7-8 séculos a realeza nunca deu qualquer instrução ao povo (basta lembrar que em 1910, 95% da população portuguesa era analfabeta), as colónias e a riqueza estiveram sempre na mão de meia dúzia de senhores, nunca se desenvolveu objectivamente a indústria, etc., etc., etc., embora se preferisse pilhar as novas terras conquistadas bem como o comércio aos turcos e outros povos… Com a monarquia perde-se mais facilmente a independência através do casamente entre famílias reais (basta recordar o porquê dos Filipes terem dominado em Portugal) e a economia nunca melhorou por termos monarquia, basta lembrar que no séc. XIX também houve uma bancarrota e as contas económicas nunca estiveram em dia… Por fim, prefiro ter um regime que até poderá ser um pouco mais dispendioso que a monarquia (é o custo da democracia) do que ter de me levantar de manhã a pensar porque é que há uma família que tem os tais direitos adquiridos e que quando o monarca falecer terei de aturar o “varão”, mesmo que não tenha as qualidades mínimas para reinar… Os bons exemplos do norte da europa “nunca” seriam aplicados em Portugal pela simples razão que não temos elites justas e solidárias. Aliás os escandinavos aguantaram-se simplesmente porque se adaptaram aos novos tempos a partir do séc. XVIII, sendo a iliteracia na suécia praticamente residual no séc. XIX.
    Seria bom alguns dos defensores monárquicos reflectirem sobre estes aspectos…

    Bom ano 2014

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