quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Tributo a Sua Majestade a Rainha por Boris Johnson

Espero que a Câmra não se importe que comece com uma confissão pessoal. Há alguns meses, a BBC veio ter comigo para falar sobre Sua Majestade a Rainha. Sentámo-nos, as câmaras começaram a filmar e pediram-me que falasse dela no passado. Infelizmente, fiquei simplesmente com a garganta fechada e não consegui continuar. Não sou, de facto, uma pessoa que se emocione facilmente até às lágrimas, mas senti-me tão dominado pela tristeza que tive de lhes pedir que se fossem embora.

Sei que, hoje, há inúmeras pessoas neste país e em todo o mundo que sentiram a mesma onda repentina de emoção inesperada, e penso que milhões de nós estamos a tentar compreender por que razão estamos a sentir esta sensação de perda tão profunda, pessoal e quase familiar. Talvez se deva, em parte, ao facto de ela ter estado sempre presente:

um ponto de referência humano imutável na vida britânica; a pessoa que - segundo todas as sondagens - aparece com mais frequência nos nossos sonhos; tão constante no seu brilho de estrela-polar que talvez tenhamos sido levados a pensar que ela poderia, de alguma forma, ser eterna.

Mas penso que o nosso choque é hoje mais intenso porque estamos a compreender, com a sua morte, toda a magnitude do que ela fez por todos nós. Pensem no que pedimos àquela mulher de 25 anos há tantos anos: que fosse a pessoa em quem se confia tanto a nível global que a sua imagem estivesse presente em cada nota da nossa moeda, em cada selo postal; a pessoa em cujo nome toda a justiça é administrada neste país, todas as leis são aprovadas, a quem todos os ministros da Coroa juram lealdade; e por quem todos os membros das nossas forças armadas se comprometem, se necessário, a dar a vida.

Pensem no que lhe pedimos naquele momento: não apenas para ser a personificação viva, no seu ADN, da história, continuidade e unidade deste país, mas de ser a figura de proa de todo o nosso sistema - a pedra angular no vasto arco do Estado britânico, um papel que só ela poderia desempenhar porque, no acordo brilhante e duradouro da monarquia constitucional, só nela se podia confiar para estar acima de qualquer interesse político partidário ou comercial e para encarnar, de forma imparcial, o próprio conceito e essência da nação.

Pensem no que lhe pedimos e pensem no que ela nos deu. Ela mostrou ao mundo não só como reinar sobre um povo; mostrou ao mundo como dar, como amar e como servir. Ao olharmos para trás, para esse vasto arco de serviço, a sua duração é quase impossível de compreender. Ela foi a última pessoa viva na vida pública britânica a ter servido de uniforme na Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira mulher da família real, em mil anos, a servir a tempo inteiro nas forças armadas.

Esse impulso de cumprir o seu dever acompanhou-a até à sua décima década de vida, até ao momento em Balmoral - como disse o meu ilustre amigo - há apenas três dias, quando se despediu do seu 14.º primeiro-ministro e deu as boas-vindas ao 15.º. Posso dizer-vos que, naquela audiência, ela estava tão radiante, tão bem informada e tão fascinada pela política como sempre me lembro, e tão sábia nos seus conselhos como qualquer pessoa que conheço, se não mais sábia ainda. Ao longo desse extraordinário período de serviço público, com a sua mente naturalmente perspicaz e curiosa, penso - e, sem dúvida, muitos dos 15 concordariam - que se tornou a maior estadista e diplomata de todos os tempos.

Ela sabia instintivamente como animar a nação, como liderar uma celebração. Lembro-me da sua alegria inocente há mais de 10 anos, após a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, quando lhe disse que o líder de um país amigo do Médio Oriente parecia acreditar realmente que ela tinha saltado de um helicóptero com um vestido cor-de-rosa e aterrado de pára-quedas no estádio. Lembro-me do mesmo prazer que sentiu quando lhe disseram, há apenas algumas semanas, que tinha sido um sucesso estrondoso na sua actuação com o Urso Paddington.

Talvez mais importante ainda, ela sabia como nos manter motivados nos momentos mais difíceis. Em 1940, quando este país e esta democracia enfrentavam a possibilidade real de extinção, ela fez uma transmissão, com apenas 14 anos, com o objetivo de tranquilizar as crianças da Grã-Bretanha. Ela disse então: «Todos nós sabemos que, no fim, tudo ficará bem».

Ela tinha razão. E voltou a ter razão nos dias mais sombrios da pandemia de COVID-19, quando apareceu nos nossos ecrãs e nos disse que nos voltaríamos a encontrar - e assim foi.

Sei que falo em nome de outros ex-primeiros-ministros quando digo que ela ajudou a confortar e a guiar-nos, bem como à nação. Tinha a paciência e o sentido da história para perceber que as dificuldades vêm e vão, e que os desastres raramente são tão graves como parecem. Foi essa indomabilidade, esse humor, essa ética de trabalho e esse sentido da história que, em conjunto, fizeram dela a Isabel, a Grande.

Quando a chamo assim, devo acrescentar uma última qualidade, claro: a sua humildade - a sua recusa em ser grandiosa, representada pelo seu aquecedor eléctrico de uma barra e pelo uso de Tupperware. Posso dizer à Câmara, como testemunha ocular directa, que, ao contrário de nós, políticos, com os nossos escoltas e os nossos comboios blindados, ela conduzia sozinha no seu próprio carro, sem detectives nem guarda-costas, a percorrer a paisagem escocesa a uma velocidade alarmante, para total espanto dos caminhantes e turistas com quem nos cruzávamos.

Foi com esse espírito indomável que ela criou a monarquia constitucional moderna - uma instituição tão forte, tão feliz e tão bem compreendida, não só neste país, mas na Commonwealth e em todo o mundo, que a sucessão já ocorreu sem qualquer sobressalto. Acredito que ela consideraria como a sua maior conquista o facto de o seu filho, Carlos III, seguir de forma clara e ampla os seus próprios padrões extraordinários de dever e serviço. O facto de hoje podermos dizer com tanta confiança «Deus salve o Rei» é uma homenagem a ele, mas, acima de tudo, a Isabel, a Grande, que trabalhou tão arduamente pelo bem do seu país, não só agora, mas para as gerações vindouras. É por isso que a choramos tão profundamente e é no íntimo da nossa dor que compreendemos por que razão a amávamos tanto.

Boris Johnson

Câmara dos Comuns
9 de Setembro de 2022

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