Espero que a Câmra não se importe que comece com uma confissão pessoal. Há alguns meses, a BBC veio ter comigo para falar sobre Sua Majestade a Rainha. Sentámo-nos, as câmaras começaram a filmar e pediram-me que falasse dela no passado. Infelizmente, fiquei simplesmente com a garganta fechada e não consegui continuar. Não sou, de facto, uma pessoa que se emocione facilmente até às lágrimas, mas senti-me tão dominado pela tristeza que tive de lhes pedir que se fossem embora.
Sei que, hoje, há inúmeras
pessoas neste país e em todo o mundo que sentiram a mesma onda repentina de
emoção inesperada, e penso que milhões de nós estamos a tentar compreender por
que razão estamos a sentir esta sensação de perda tão profunda, pessoal e quase
familiar. Talvez se deva, em parte, ao facto de ela ter estado sempre presente:
um ponto de referência humano
imutável na vida britânica; a pessoa que - segundo todas as sondagens - aparece
com mais frequência nos nossos sonhos; tão constante no seu brilho de
estrela-polar que talvez tenhamos sido levados a pensar que ela poderia, de
alguma forma, ser eterna.
Mas penso que o nosso choque é
hoje mais intenso porque estamos a compreender, com a sua morte, toda a
magnitude do que ela fez por todos nós. Pensem no que pedimos àquela mulher de
25 anos há tantos anos: que fosse a pessoa em quem se confia tanto a nível
global que a sua imagem estivesse presente em cada nota da nossa moeda, em cada
selo postal; a pessoa em cujo nome toda a justiça é administrada neste país,
todas as leis são aprovadas, a quem todos os ministros da Coroa juram lealdade;
e por quem todos os membros das nossas forças armadas se comprometem, se
necessário, a dar a vida.
Pensem no que lhe pedimos naquele
momento: não apenas para ser a personificação viva, no seu ADN, da história,
continuidade e unidade deste país, mas de ser a figura de proa de todo o nosso
sistema - a pedra angular no vasto arco do Estado britânico, um papel que só
ela poderia desempenhar porque, no acordo brilhante e duradouro da monarquia
constitucional, só nela se podia confiar para estar acima de qualquer interesse
político partidário ou comercial e para encarnar, de forma imparcial, o próprio
conceito e essência da nação.
Pensem no que lhe pedimos e
pensem no que ela nos deu. Ela mostrou ao mundo não só como reinar sobre um
povo; mostrou ao mundo como dar, como amar e como servir. Ao olharmos para
trás, para esse vasto arco de serviço, a sua duração é quase impossível de compreender.
Ela foi a última pessoa viva na vida pública britânica a ter servido de
uniforme na Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira mulher da família real, em
mil anos, a servir a tempo inteiro nas forças armadas.
Esse impulso de cumprir o seu
dever acompanhou-a até à sua décima década de vida, até ao momento em Balmoral
- como disse o meu ilustre amigo - há apenas três dias, quando se despediu do
seu 14.º primeiro-ministro e deu as boas-vindas ao 15.º. Posso dizer-vos que,
naquela audiência, ela estava tão radiante, tão bem informada e tão fascinada
pela política como sempre me lembro, e tão sábia nos seus conselhos como
qualquer pessoa que conheço, se não mais sábia ainda. Ao longo desse
extraordinário período de serviço público, com a sua mente naturalmente
perspicaz e curiosa, penso - e, sem dúvida, muitos dos 15 concordariam - que se
tornou a maior estadista e diplomata de todos os tempos.
Ela sabia instintivamente como
animar a nação, como liderar uma celebração. Lembro-me da sua alegria inocente
há mais de 10 anos, após a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de
Londres, quando lhe disse que o líder de um país amigo do Médio Oriente parecia
acreditar realmente que ela tinha saltado de um helicóptero com um vestido
cor-de-rosa e aterrado de pára-quedas no estádio. Lembro-me do mesmo prazer que
sentiu quando lhe disseram, há apenas algumas semanas, que tinha sido um
sucesso estrondoso na sua actuação com o Urso Paddington.
Talvez mais importante ainda, ela
sabia como nos manter motivados nos momentos mais difíceis. Em 1940, quando
este país e esta democracia enfrentavam a possibilidade real de extinção, ela
fez uma transmissão, com apenas 14 anos, com o objetivo de tranquilizar as
crianças da Grã-Bretanha. Ela disse então: «Todos nós sabemos que, no fim, tudo
ficará bem».
Ela tinha razão. E voltou a ter
razão nos dias mais sombrios da pandemia de COVID-19, quando apareceu nos
nossos ecrãs e nos disse que nos voltaríamos a encontrar - e assim foi.
Sei que falo em nome de outros
ex-primeiros-ministros quando digo que ela ajudou a confortar e a guiar-nos,
bem como à nação. Tinha a paciência e o sentido da história para perceber que
as dificuldades vêm e vão, e que os desastres raramente são tão graves como
parecem. Foi essa indomabilidade, esse humor, essa ética de trabalho e esse
sentido da história que, em conjunto, fizeram dela a Isabel, a Grande.
Quando a chamo assim, devo
acrescentar uma última qualidade, claro: a sua humildade - a sua recusa em ser
grandiosa, representada pelo seu aquecedor eléctrico de uma barra e pelo uso de
Tupperware. Posso dizer à Câmara, como testemunha ocular directa, que,
ao contrário de nós, políticos, com os nossos escoltas e os nossos comboios
blindados, ela conduzia sozinha no seu próprio carro, sem detectives nem
guarda-costas, a percorrer a paisagem escocesa a uma velocidade alarmante, para
total espanto dos caminhantes e turistas com quem nos cruzávamos.
Foi com esse espírito indomável
que ela criou a monarquia constitucional moderna - uma instituição tão forte,
tão feliz e tão bem compreendida, não só neste país, mas na Commonwealth
e em todo o mundo, que a sucessão já ocorreu sem qualquer sobressalto. Acredito
que ela consideraria como a sua maior conquista o facto de o seu filho, Carlos
III, seguir de forma clara e ampla os seus próprios padrões extraordinários de
dever e serviço. O facto de hoje podermos dizer com tanta confiança «Deus salve
o Rei» é uma homenagem a ele, mas, acima de tudo, a Isabel, a Grande, que
trabalhou tão arduamente pelo bem do seu país, não só agora, mas para as
gerações vindouras. É por isso que a choramos tão profundamente e é no íntimo
da nossa dor que compreendemos por que razão a amávamos tanto.
Boris Johnson
Câmara dos Comuns
9 de Setembro de 2022

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