O não mundialmente famoso sociólogo Adriano Campos terá desgostado da recente visita dos Reis de Espanha à Assembleia da República. Vai daí, abalançou-se ao tratado político escrevendo (sob o título: «Um Rei na Assembleia da República: cenas de um país improvável») preciosidades como esta - «A Monarquia como sistema de governo reside no passado, avesso à democracia e fiel ao fraco ideal do poder por filiação. Não serve aos povos e é inaceitável como meio de subjugação. Mas Portugal é mesmo um país improvável... faltava-nos, pois, um Rei na Assembleia da República».
Impôr-se-ia, face à boutade de Adriano Campos, uma palavra de solidariedade para com os subjugados, e no passado entranhados, povos britânicos, nórdicos, etc, etc, - mais coisa, menos coisa, metade da Europa, pelos vistos avessa à democracia e incapaz de se libertar do poder por filiação. Ou, em alternativa, calcular o escalão etário de Adriano Campos, e situá-lo algures nestas décadas de desensino da República que nos liberta das vantagens do saber.
Mais precisamente - tem-se por hipótese válida - no tempo em que a Sociologia se deapartou da Ciència Política e do Direito Constitucional. Sendo assim desculpável Adriano Campos ignore que a Monarquia não é um sistema de governo; e que assenta na soberania popular, vale dizer na vontade expressa pelas comunidades em escolherem como símbolo representativo (e apaziguante...) da sua nacionalidade a Família reinante. Apenas isso, como bem se constata em Espanha.
Fora este pequeno pormenor, Adriano Campos tem toda a razão - Portugal (demonstra o seu próprio pensamento) é mesmo um país improvável.
João Afonso Machado in Corta-fitas
Caro cavalheiro,
ResponderEliminarAo ler o seu “O País Improvável”, fico estupefacto com os seus comentários abonatórios à monarquia comparativamente à república. Esta última tem falhas, seguramente que as terá, mas como é que V. Exa. não tem a clarividência de verificar que as monarquias do norte da europa são evoluídas não por terem rei mas porque aquela gente é bem diferente das gentes do sul da europa . Aqui no sul, somos pouco solidários, uma cambada de ladrões e que se está nas tintas para a colectividade. Repare, até a filha do ex-rei Juan Carlos foi implicada em aldrabice. Afinal parece que não é somente o republicano Sócrates, mas toda a gente, desde que tenham acesso ao poder. Acha que os oito séculos de monarquia em Portugal deixaram o nosso povo instruído e/ou feliz? Ou contribuíram para a burrice, ignorância e até pobreza generalizada? Repare, no séc. XIX o analfabetismo na Suécia era residual. Em Portugal aquando da implantação da república, 5% das nossas gentes eram alfabetizadas… Esta é a diferença. Até porque isso para as monarquias do sul não interessa, porque mesmo que os descendentes das famílias abastadas sejam ignorantes, burros ou idiotas, o espólio que os seus antepassados deixaram (sabe-se lá como muitas vezes foi conseguido…) chega-lhes e sobra para viverem principescamente numa sociedade atrasada e ignorante, ficando a integração na sociedade feita pelo nome do pai ou avô e não pelo que conseguiram pelos seus próprios meios… Pode ser um “nabo”, mas é o filho do “Sr. Fulano tal”…
Não me interessa a minha origem, se sou nobre ou não, mas interessa-me muito mais se sou capaz por vontade e inteligência própria meritocracia ) de construir algo e, não viver de um passado carunchoso e que foi deixado por legado e muitas vezes ao acaso. Quantos filhos legítimos não foram deserdados injustamente e quantos foram perfilhados e que o destino os ligou a uma família nobre, embora de forma completamente ilegítima… Os designados ocasos da zoologia…
Na passagem de último testemunho em Espanha, não me lembro de nenhum referendo, nem tão-pouco nenhuma “soberania popular” a legitimar o Filipe. Vi antes manifestações de descontentamento em Madrid a quererem o dito referendo. Embora sem sucesso…
Portanto, caro cavalheiro, “poder” é “poder”… E tanto é questionável o poder alcançado pela espada do rei Afonso Henriques, que o conquistou pela violência do mais forte (e sabe-se lá o sangue que necessitou de derramar para o alcançar…), como porventura será questionável pelo regicídio (porventura o monarca e a elite de então não tiveram a clarividência de verificar que o seu reinado não agradava de todo ao povo que representava e estava acabado).
O rei Carlos era, no meio da incultura que os quase todos antecessores detinham, pintor e oceanógrafo, embora o povo queira um rei que reine bem e não um artista ou cientista. Se assim não fosse iriamos à Flandres ou à Alemanha buscar alguém com dotes ainda maiores…
Dificilmente um regime republicano fará um referendo à monarquia, nem tão-pouco a monarquia o fará à república. Nem Francisco Franco o fez em Espanha, embora a sua condição de ditador tenha imposto a monarquia. Verdadeiramente quem pretende o poder nunca o larga, inventando sempre os argumentos que lhe forem mais convenientes. Verdadeiramente poucos são os regimes que gostam de ser legitimados. Mesmo assim, a República, é porventura mais sufragada e mais democrática, como é vulgarmente reconhecido pelos entendedores de ciência política…
Saudações republicanas